Conflitos

Eu tinha um post pronto para hoje, mas, dadas as circunstâncias desta semana, não poderia postá-lo e me calar sobre os últimos acontecimentos. mesmo porque o assunto é um só: conflitos.

A ideia inicial era trazer pro blog uma discussão sobre a crise de Wall Street. Depois pensei em completar (não o fiz) fazendo um paralelo com os conflitos da chamada Primavera Árabe (resolvi manter o post por falta de tempo hábil em elaborá-lo junto com essa discussão inicial).

Acontece que eu venho há meses assistindo – na mídia e na internet – os conflitos e a repressão à população revoltosa em países árabes com regimes autoritários: o Estado, para se manter no poder, usa todas as suas forças para tal, inclusive se voltando contra o seu povo, por meio de repressões policiais e militares violentas, ocasionalmente (ou frequentemente) terminando em mortos, mas, certamente, terminando com muitos feridos e uma população humilhada, desprovida de seus direitos (o que eu considero ser um direito, mesmo não sendo necessariamente compreendido como tal naqueles governos) de manifestação, de liberdade de se expressarem e reivindicarem melhorias.

Nesse meio tempo, o movimento Occupy Wall Street e as grandes manifestações no mundo ocidental ganharam força frente à crise mundial iniciada em 2008 e que ameaça a estabilidade econômica de países e de blocos mundiais, bem como as medidas de austeridade impostas pelo FMI como contrapartida aos empréstimos de recursos monetários exorbitantes, em troca de uma política econômica de retração, de contenção de ações sociais, etc. (confesso que conheço muito pouco sobre o assunto).

Se, anos atrás (nossa, já faz mais de uma década!) no Brasil, nos calamos frente às imposições do FMI e sua política neoliberal que terminou de esfacelar as poucas conquistas sociais deste estado patrimonialista, o povo dos países que sofrem com a chamada Crise do Mundo Desenvolvido não se cala. Não vem ao caso discutir aqui as diferenças entre nós e eles, que nos levaram a ações tão distintas. Fato é que as reivindicações nos EUA e na Europa fizeram crescer uma população, composta sobretudo por jovens, de manifestantes permanentes nos espaços públicos, que exige com muita energia, melhorias sociais.

A partir disso, meu post inicial seguia fazendo relações de como o Estado age também nos EUA contra a sua população revoltosa.

Aqui cabe o aparte quanto aos acontecimentos da semana: a reintegração de posse violenta do prédio da Reitoria da USP foi tão brutal quanto às ações do governo líbio ou sírio durante a Primavera Árabe, ou mesmo contra os manifestantes do Occupy. Não quero aqui entrar no mérito se a ocupação da Reitoria era legítima ou não, se o motivo dos estudantes terem se rebelado era pela presença opressiva da PM no Campus ou sobre a legalização da maconha. Agora isso já não tem mais importância.

Reintegração de posse na USP (08/11/2011). Arma pesada contra estudante.

Provou-se o poder bélico do nosso estado! Exagerei? Acredito que não. A imagem da arma apontada para a estudante é uma imagem tão chocante que fala por si: não é essa a ação policial que eu quero na minha sociedade. Mesmo se fosse um bandido. Não é assim que eu quero que a polícia da minha cidade aja para promover a segurança da cidade onde eu moro. Mesmo quem descumpre a lei deve ser tratado com respeito. Principalmente pela polícia, que é a “mantenedora da ordem”, que é a responsável pela paz e segurança, e por tirar das ruas os criminosos (?).

Pois bem. Que ordem é essa que queremos? Que sociedade é essa que, ao redor do mundo, não importa se em regime ditatorial ou democrático, vale-se do poder bélico do Estado para coibir, coagir e silenciar seu povo, para liquidar à força e sem diálogo os conflitos urbanos e sociais inerentes ao sistema que ele próprio mantém? Como podemos nos calar frente a tanta barbárie? Sim. Barbárie, porque quando o Estado cala o diálogo, fecha toda e qualquer possibilidade de acordo de seus conflitos, é impossível que se busque a paz e a segurança. Nem dentro dos muros da escola.

A cenas de ontem me chocaram, bem como os relatos dos alunos que ali estavam, a frieza com que a operação (de guerra) foi montada pelo Reitor e pelo Governador. Diante de todas essas medidas, é preciso não se calar. É preciso gritar cada vez mais alto até que se possa ser ouvido, não importa por qual idioma, em qual cultura ou regime sócio-político. Pelos direitos humanos, pelos direitos básicos de manifesto, de livre expressão, de reivindicações sociais, chega de usar as armas da polícia e partamos, por favor, ao debate (este sim, profundo e caloroso) intelectual e político.

(Sobre o conflito na USP, recomendo – por compartilhar da opinião deles mas, sobretudo, por serem sérios e não meras expeculações e sensacionalismos midiáticos –  dentre as muitas coisas que li, o texto do Marcelo Rubens Paiva http://blogs.estadao.com.br/marcelo-rubens-paiva/geracao-mascarada/ e o texto do Matheus Pichonelli http://www.cartacapital.com.br/blog/sociedade/ocupacao-patetica-reacao-tenebrosa/#.TrslDlJRMNR.facebook)

Crise em Wall Street (o post original para este dia)

Tanto a crise do Sub-Prime quanto as suas consequências desde 2008 têm me despertado particular interesse, mesmo que eu não entenda exatamente todo esse processo macroeconômico.

As manifestações na Espanha e o movimento Occupy Wall Street mostram o outro lado dessa crise, mais humano, mais palpável para mim, que sou leiga no assunto.

o site oficial da ocupação de Wall Street é o http://occupywallst.org

Em particular, recomendo esse vídeo, sobre o 1o mês completado do movimento. http://occupywallst.org/article/where-do-we-go-here/

Outro vídeo que assisti na internet, fazia um paralelo entre a violência policial de repressão ao Occupy e o discurso de Barack Obama e Hillary Clinton pela liberdade de expressão e de manifestação e democracia ao criticarem veementemente a violência utilizada pelos governos para reprimir a Primavera Árabe.

Esses dias, em discussão com uns amigos, me passaram um vídeo que explica, com desenhos e de forma leve, o início da cirse do sub-prime, que arrasou os EUA e ameaça o mundo capitalista.

Segue o link: http://crisisofcredit.com/

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Favela Rising

O Gabs, aqui mesmo no blog, me sugeriu de ver o filme “O poder de um Jovem” (The Power of One, 1992) e eu gostei muito. Não vou entrar muito nos méritos dele, mas se passa na África do Sul e é sobre a Apartheid. Logo após terem voltados de uma das regiões/ bairros/ cidade (não sei muito bem como eram definido as divisões) destinado aos negros, Maria (branca, filha de um dos pais da Apartheid), em sua mansão, conversa com P.K. (também branco, é o protagonista) e ela diz que não imaginava as condições que os negros moravam, achava que era como ela, mas em casas um pouco menores. Esses bairros negros, morfologicamente falando, eram favelas.

Deste que eu voltei, tenho na minha cabeça a idéia de conhecer mais a realidade ridícula de nosso país, porque acho que somos como a Maria, acho que não sabemos a realidade de tantas pessoas ao nosso redor vivem. Sua empregada doméstica, meu porteiro, aquele cobrador, a tia da cantina, a moça do café e o cara da xérox não vivem em casas como as nossas, só um pouco menor, mas vivem em habitações nada saudáveis, em favelas.

Não é muito difícil pensar porque nos acho ignorantes. Quantas vezes não falamos ou ouvimos comentários sobre como a África sofre e como deveríamos ajudá-la, mas ao mesmo tempo temos milhões de favelados no Brasil. Cara, a gente tem a Indústria da Seca no nordeste!

Como é criada uma imagem que todo favelado* é o Zé Pequeno, evitamos o máximo possível entrar em contato e o que sabemos dessas habitações é o que vemos na TV e, é claro, nunca ligamos as imagens da telinha com a realidade e achamos que nossas faxineiras moram em casas como as nossas, só um pouco menores…

Agora tenta imaginar uma história assim:

Você mora em uma favela e seu irmão acaba sendo assassinado em uma chacina. O que você faz? Explodiria tudo? Bom, o Anderson Sá teve uma idéia relativamente simples e uma força de vontade monstruosa.

No meio de tudo, de uma chacina com o irmão envolvido, ele pensou que formando um grupo social cultural musical ele afastaria as pessoas do tráfico e violência, trazendo uma proposta de futuro melhor. Não é uma idéia simples? Basicamente é o que falam todos os dias que devia ser feito, dar oportunidade aos favelados. Mas o cara foi lá e fez, isso é incrível. O tal grupo é o AfroReggae e essa história é registrada no documentário Favela Rising e essa é a dica do meu post de hoje, em véspera de prova de PEF. Assistam amiguinhos!!

* Reparou que peso a palavra “favelado” trás com ela, violência e tudo de pior.

OBS: Adivinha qual solução os negros pensaram para combater a miséria e a Apartheid, ah… educação…