Do outro lado: Istvan Banyai e Life in a day

Duas produções incríveis passaram na minha vida essa semana e me fizeram sentir sensações bastante parecidas. Uma um livro e outra um filme. E me fizeram pensar como muitas vezes esquecemos o quanto o mundo é grande e nós somos pequenos, apenas uma parte dessa grande e incrível rede que interliga todo o planeta.

Bom, vamos lá. Segunda-feira estava passeando pela lojinha do espaço Unibanco como quem não quer nada, esperando o filme começar e me deparei com esse livro. Acho que por causa do meu tfg o título acabou chamando minha atenção, mas depois que comecei a folhear, percebi a genialidade da coisa.

O livro se chama “O outro lado” de um ilustrador e fotógrafo húngaro chamado Istvan Banyai, e ele mostra com desenhos, em uma página o que existe de um lado, e quando viramos a página o que estava do outro. É difícil explicar, mas ele constrói belíssimas narrativas com um traço simples e muita leveza ao contar a história. Por exemplo, em uma página vemos uma menina que observa um aviãozinho de papel no céu, e na outra página vemos o menino jogando os aviões. Dessa maneira o livro vai prendendo nossa atenção, passeamos pelas páginas sempre querendo saber o que está do outro lado.

A descrição no site da Livraria Cultura explica bem: “Dependendo do ponto de vista, a mesma situação pode ter infinitas percepções diferentes, prova de que nem tudo é exatamente o que parece ao primeiro olhar. Um inteligente jogo de enigmas ganha complexidade a cada página e instiga o leitor a questionar sua própria realidade. As ilustrações desafiam o leitor a desvendar todos os ‘outros lados’; dentro e fora, em cima e embaixo, quente e frio, perto e longe, claro e escuro, ficção e realidade. Curioso e estimulante, é um livro feito sob medida para pessoas atentas aos detalhes”.

Algumas imagens e embaixo o site com a descrição do livro:

http://www.livrariacultura.com.br/scripts/resenha/resenha.asp?isbn=8575036734

Já o filme, chegou até mim por um amigo querido, e acabei assistindo quinta-feira da mesma semana. Ele chama “Life in a day”, e foi criado a partir de 80 mil videos, 4500 horas de filmagens, vindas de 192 países diferentes. Vou explicar melhor. A ideia veio de uma parceria entre o YouTube, a Ridley Scott Associates e a LG, que anunciaram no dia 06 de julho de 2010 que quem quisesse participar poderia mandar um vídeo sobre o que aconteceu na sua vida no dia 24 de julho de 2010. Depois de receber essa tonelada de imagens do mundo todo o diretor Kevin Macdonald e o editor do filme Joe Walker organizaram e produziram um filme de aproximadamente 94 minutos, que mostra essa diversidade incrível de informação. Uma coisa bem interessante é que todos os autores das imagens escolhidas são creditados como co-diretores.

Além do lance surreal de ser algo feito de maneira coletiva, depois que assisti o filme fiquei mergulhada nessa sensação de como o mundo é grande, como pode tudo isso ser verdade e ter acontecido no mesmo dia! 24 horas de história! E isso é tão pouco pra história da Terra!

Bom, vale conferir! Aqui fica o link do Youtube:

http://www.youtube.com/watch?v=JaFVr_cJJIY&feature=watch-now-button&wide=1&has_verified=1&oref=http%3A%2F%2Fwww.facebook.com%2Fl.php%3Fu%3Dhttp%3A%2F%2Fwww.youtube.com%2Fwatch%3Fv%3DJaFVr_cJJIY%26feature%3Dwatch-now-button%26wide%3D1%26has_verified%3D1&h=qAQF4R6ULAQHYu-buv9wzlz781R_edmULpTwIYqXpWNAYvg

Adultérios – Woody Allen

Tá, eu sei que falar do Woody Allen não é nenhuma novidade, mas domingo eu fui assistir uma peça com o roteiro baseado em uma história chamada Central Park West que está no livro Adultérios, do cineasta e gostei muito!

Sou um pouco suspeita pra falar, porque realmente gosto do tipo de humor neurótico e desesperado do Woody Allen, mas a peça teve bastante liberdade e soube também criar em cima do texto (já que tamo na onda da tradução intersemiótica!). Tem sempre aquele diálogo e aquela frase em que você pensa “isso é Woody Allen”, mas acho que por ser teatro existe uma relação maior de interação com o público que acaba interferindo também no próprio texto, e por ser uma adaptação acaba recebendo umas pitadas de “brasilidade”, do nosso jeito de falar e de se relacionar.

A peça está no Teatro Shopping Frei Caneca, e fica em cartaz até o dia 27 de novembro. Os preços são acessíveis, variam de 50 a 70 reais (inteira), e é uma ótima pedida pra levar desde a mãe e o avô até o flerte da semana!

Ahhh, uma coisa super interessante, e que eu descobri só depois que eu assisti, é que os atores que fazem os dois personagens principais da peça, Fábio Assunção e Norival Rizzo, ensaiaram pra fazer os dois papéis, e eles alternam as interpretações nas apresentações!

Mais informações da peça: http://www.teatrofreicaneca.com.br/home/207-adulterios

Pra quem tiver mais interesse, o livro Adultérios é super baratinho e fácil de encontrar pelas bancas de jornal. Acho que vale a leitura!

 

As cidades e o desejo

“No centro de Fedora, metrópole de pedra cinzenta, há um palácio de metal com uma esfera de vidro em cada cômodo. Dentro de cada esfera, vê-se uma cidade azul que é o modelo para uma outra Fedora. São as formas que a cidade teria podido tomar se, por uma razão ou outra, não tivesse se tornado o que é atualmente. Em todas as épocas, alguém, vendo Fedora tal como era, havia imaginado um modo de transformá-la na cidade ideal, mas, enquanto construía o seu modelo em miniatura, Fedora já não era mais a mesma de antes e o que ate ontem havia sido um possível futuro hoje não passava de um brinquedo numa esfera de vidro.

Agora Fedora transformou o palácio das esferas em museu: os habitantes o visitam, escolhem a cidade que corresponde aos seus desejos, contemplam-na imaginando-se refletidos no aquário de medusas que deveria conter águas do canal (se não tivesse sido dessecado), percorrendo no alto baldaquino a avenida reservada aos elefantes (agora banido da cidade), deslizando pela espiral do minarete em forma de caracol (que perdeu a base sobre a qual se erguia).

No atlas do seu império, ó grande Khan, devem constar tanto a grande Fedora de pedra quanto as pequenas Fedoras das esferas de vidro. Não porque sejam igualmente reais, mas porque são todas supostas. Uma reúne o que é considerado necessário, mas ainda não o é; as outras, o que se imagina possível e um minuto mais tarde deixa de sê-lo.”

 

“Marco Polo descreve uma ponte, pedra por pedra.

– Mas qual é a pedra que sustenta a ponte? – pergunta Kublai Khan.

– A ponte não é sustentada por esta ou aquela pedra – responde Marco -, mas pela curva do arco que estas formam.

Kublai Khan permanece em silêncio, refletindo. Depois acrescenta:

– Porque falar das pedras? Só o arco me interessa.

Polo responde:

– Sem pedras, o arco não existe”.

 

 Italo Calvino

As cidades invisíveis (Le città invisibili)

Companhia das Letras

Lembranças de Velhos

Bairro do Pari em 194etantos

 

Bom, meu TFG é sobre o Pari e, consequentemente, sobre a minha família e a minha avó, que mora aqui desde sempre na minha cabeça. E como eu estou na reta final e sem tempo de pensar em outros temas, vamos com um dos que estudei.

Tem um livro da Ecléa Bosi que chama “Memória e Sociedade – Lembranças de Velhos”. Ele é um livro muito legal por muitas razões, mas vou citar as duas principais, na minha humilde opinião. A primeira é que ele coloca a memória como um ponto chave na construção e destruição das cidades. De uma forma muito sensível, alia a construção coletiva do espaço com a construção mental individual de cada um. Eu dependo do outro para afirmar minhas memórias, e nos dependemos mutuamente para assegurar que elas continuem existindo. Quem já entrou na atlética da FAU e se sentiu muito melhor porque havia um amigo do sexto ano lá também entende o que estou falando. Quando temos com a gente uma pessoa que também vivenciou aqueles momentos, parece que lembrá-los juntos faz mais sentido. Que interesse um bixo tem no nosso primeiro interfau? Nenhum, e parece ser sem sentido ficar sozinho lá falando, como um velho.

E é isso que acontece com a cidade de São Paulo e tantas outras. Vem uma política dominada pela especulação imobiliária e sem nenhum tipo de controle e simplesmente destrói toda a memória do bairro, descaracterizando-o completamente, a ponto da comunidade que ali vive não ter condições financeiras e psicológicas de continuar naquele espaço. Afinal de contas, desconsiderando o alto preço das coisas, porque minha avó continuaria sozinha num bairro cheio de prédios, escritórios, sem padaria, sem os vizinhos jogando bocha aos domingos, sem os amigos conversando na porta de casa? Provavelmente ela iria morar com algum dos meus tios e adeus vida própria, adeus memória, adeus Pari. Achei muito foda isso, destruir a memória através da destruição física é um jeito muito comum e perverso de dominação de um povo. Afinal, não foi isso que Hausmann fez em Paris, destruindo as vielas e ruazinhas, deixando todas as ruas largas e com condições de passar um tanque de guerra? E mais que tudo isso, o mais interessante, ao construir grandes avenidas que se parecem com qualquer outro lugar do mundo, você se sente cosmopolita, se sente urbano, e perde o sentido de grupo que causam as revoluções. Somos apenas um na Faria Lima, mas não somos mais um no nosso bairro (falando do Pari).

É triste ver que São Paulo não tem memória.

(eu ia falar da segunda coisa mas ia ficar gigante, então fica como um teaser pro meu próximo post, quem sabe)

Moda, modos e sexualidade na história do Brasil

Voltei a ler romances e coisas não relacionadas à arquitetura ou ao urbanismo. Mas como cabeça de arquiteto respira arquitetura até no meio do mar (eu, pelo menos, sou meio assim), queria comentar um pouco as minhas percepções sobre minha leitura atual.

Estou lendo um livro chamado “Histórias Íntimas – Sexualidade e Erotismo Na História do Brasil”, de Mary Del Priore. Ela conta como eram as relações amorosas e sexuais desde o Brasil colonial e suas transformações ao longo dos séculos, muitas delas pautadas pelas características peculiares à história do Brasil e outras importadas por uma exaltação europeia ou mesmo porque na Europa se avançava em pesquisas e relações sociais, o que o Brasil incorporou por diversas razões.

Por outro lado, Richard Sennett (uma das minhas leituras de faculdade) apresenta em dois livros, por outros vieses, as relações sociais na vida urbana, no séc. XVII e XIX. Se Sennett traz um olhar pro espaço urbano e pro homem público, Mary Del Priore desvenda a esfera privada no íntimo familiar (deixando claro que Sennett trata da Europa, sobretudo de Paris e Londres, enquanto Mary escreve sobre o Brasil).

Algo que eu acho muito interessante nessa leitura é perceber o quanto os espaços públicos e os momentos de aparição pública refletem um momento da sociedade, as relações entre os indivíduos e a opressão à mulher nessa sociedade.

Se, no séc. XIX, há uma exaltação à vida privada, da privacidade, como descrito em “O Declínio do homem público” de Sennett, dessa mesma forma há uma criminalização ao prazer feminino. Se as mulheres podem ir à ópera, em uma exposição pública no templo da burguesia, elas não podem ser vistas desacompanhadas, mesmo que seus maridos possam aparecer publicamente com outras mulheres, haja vista o papel crucial do poder e da potência do homem e a função reclusa de procriadora da mulher. E, se as “mulheres da sociedade” vão ao teatro cheias de pudor, é com as atrizes e com as prostitutas que os homens se divertiam depois do espetáculo. Às mulheres, a reclusão, o pudor, os romances burgueses; aos homens, a liberdade e o orgasmo.

Da mesma forma, as rápidas transformações do começo do séc. XX, o automóvel, a fábrica, a velocidade, são acompanhadas – dialeticamente – pela exclusão do uso do espartilho, em um primeiro momento pela liberdade das curvas (as godinhas de Renoir, de Degas), depois pela descoberta dos benefícios da ginástica e o progressivo culto a corpos esbeltos (visto pelas telas de modigliani) até chegar hoje à cultura a uma magreza extrema.

“Não se associava mais o redondo das formas – as ‘cheinhas’ – à saúde, ao prazer, à pacífica prosperidade burguesa que lhes permitia comer muito, do bom e do melhor. A obesidade começa a tornar-se um critério determinante da feiura, representando o universo do vulgar, em oposição ao elegante, fino e raro. (…) A gordura opunha-se aos novos tempos, que exigiam corpos ágeis e rápidos. A magreza tinha mesmo algo de libertário: leves, as mulheres moviam-se mais e mais rapidamente, cobriam-se menos, com vestidos mais curtos e eestreitos, estavam nas ruas” (Mary Del Priore: “Histórias Íntimas – Sexualidade e Erotismo Na História do Brasil”, p. 115-116).

Perceber as relações sociais no urbano, a partir de elementos da sociologia, da moda, dos espaços produzidos; ter essa mudança de olhar, de visão de mundo, foram, talvez, o ganho mais sensível da graduação.

Um pouco de literatura

Hoje vou falar de economia política mundial. Mentira, mas eu achei que começando com uma piadinha, eu poderia lhe convencer a ler meu post.

Eu tinha outros temas para postar, mas ultimamente estou numa correria e fiquei sem tempo de preparar, então vou falar de dois livros que sempre recomendo para serem lidos.

 

O primeiro livro é de literatura, um amigo meu me recomendou (depois descobri que ele não o havia lido inteiro) e é muito bom. O romance conta a vida de algumas pessoas nos EUA após a II Guerra Mundial, mas com um detalhe: o Eixo (Alemanha, Itália e Japão) venceu a Guerra.

São diferentes personagens que acabam contando as diferentes faces do mundo. O livro é muito fácil de ser lido. Chama-se “O Homem do Castelo Alto” porque um dos personagens é um homem (que mora em um lugar que ele denomina de Castelo Alto) que escreveu um livro sobre um mundo onde os Aliados teriam vencido a Guerra. Vale muito a pena ser lido e o final é daqueles “O que é realidade?”, sabe? A mesma sensação que você teve ao ver Matrix.

                   O Homem do Castelo Alto

                   Philip K. Dick

                   Editora Aleph

 

 

 

 

Um dia, durante uma aula de paisagismo estávamos discutindo a importância dos campinhos de futebol. Imagens como esta não é incomum no nosso país:*

Enquanto as casas se amontoam e brigam por todo o espaço possível, o campinho de futebol é intocável, mas por quê? Único momento de lazer? Numa vida tão foda, é o momento que pelo menos 11 podem vencer? Confraternização entre todos? Eu não sei. Nossa discussão durou uns 30 minutos e foi a partir disso que a professora me sugeriu como leitura esse livro.

 

O livro é um relato de um jornalista americano (é legal ser americano, pois é um país sem influencias desse esporte, é como se fosse mais imparcial ou muito pelo contrário, talvez cheio de preconceitos? Não sei, tire sua própria conclusão) que viaja entre países e relata a relação do futebol com a sociedade local nesses novos tempos, principalmente com o fator da globalização.

Para os menos apaixonados pelo esporte, não é nem preciso ler o livro para saber que o futebol está presente na história.

Durante a ditadura na Espanha, o catalão era proibido de ser falado assim como qualquer outra característica cultural. Aí que entrou o futebol. Dentro do estádio, nos jogos do Barcelona, era o momento que eles encontravam sua cultura. Falavam, cantavam, gritavam e eram catalães de um modo que não podiam no dia-a-dia. Talvez você não ache interessante, mas eu acho isso incrível. E não para por aí, por mais fraco que seja o futebol irlandês, Celtic x Rangers é uma das maiores rivalidades do mundo, pois representa a eterna guerra entre católicos e protestantes no país.

Esses dois exemplos eu ilustro para mostrar como interessante é esse tema, sinceramente não sei se são relatados no livro, pois, admito, não o li até o final (foi um pouco antes de morar fora e não queria levar leituras em português comigo, não deu tempo de terminar). Mas vale a pena ler, saber que um esporte pode fazer parte de nossa cultura e história.

          Como o Futebol Explica o Mundo – Um olhar inesperado                    sobre a Globalização 
           Franklin Foer
           Editora Zahar