Arquitetura e Cadeia Alimentar

Buenas,

hoje decidi comentar um filme que vi já faz um bom tempo, peguei enquanto passeava pelos canais da tv. O longa The Architect retrata a história de um arquiteto/professor/pai de família e o processo de reestruturação de um conjunto habitacional de sua autoria. A trama ou tensão do filme começa quando uma moradora deste local comparece a uma aula em que o nosso companheiro de profissão esta falando exatamente das delicadezas de um projeto e sua relação com a vida ali presente.

É muito interessante ver o desenrolar de cada diálogo da história que mostra diferenças claras entre necessidade, realidades e intenções.

Esse tema me interessa intensamente – saber até que ponto o que deve prevalecer é   traço da lapiseira ou o da vida de cada indivíduo. Neste momento em que ainda nos encontramos, da descrença da sociedade em nossa função devemos nos perguntar se o que deve mudar são nossos clientes ou se somos nós mesmos. Como aproximar a cultura brasileira (em grande escala, não apenas a que aparece por ai nas bancas) da arte que tanto amamos e defendemos devemos esperar que eles se apaixonem pelas mesmas coisas que nós, nos rendermos aos seus anseios ou crescermos juntos em um equilíbrio ainda não encontrado.

Pensando sobre isso, metaforizei (sim! eu ainda sei o que é isso) – imagei um animal, o Arkitettus Camelopardalis que não consegue se inserir na cadeia alimentar da região em que habita e a culpa incessantemente pela sua falta de espaço, logo sua fome e a sua solidão.

Ao mesmo tempo e talvez de maneira mais otimista me utilizo as palavras do mestre centenário, que relativiza essas reflexões e nos lembra que todas essas questões arquitetônicas ainda estão em segundo plano.

“A vida é importante; a Arquitetura não é. Até é bom saber das coisas da cultura, da pintura, da arte. Mas não é essencial. Essencial é o bom comportamento do homem diante da vida.”

– Oscar Niemeyer

louis kahn, por outro lado.

Descobri – e conferi – esses dias um filme feito por Nathanael Kahn, que não por acaso é filho de Louis I. Kahn, arquiteto moderno americano do século passado. Ainda que possa ser bastante interessante conhecer essas figuras de um ponto de vista mais humano, o que realmente me chamou a atenção em «My Architect» (dvd, 2003) foram as tomadas envolvendo os edifícios projetados por Kahn. Mais do que um tratamento incrível das imagens de projetos já bastante conhecidos – como é o caso do Salk Institute, na California – a grande surpresa fica por conta das imagens que apresentam, pela primeira vez em vídeo, o complexo de edifícios do governo de Bangladesh – obra finalizada em 1984, mais de uma década depois da morte do arquiteto – assim como diversas obras da maior relevância e que, especialmente aqui no brasil, jamais receberam publicações tão cuidadosas.

Infelizmente não consegui nenhum link para o vídeo completo. Entretanto é possível assistir alguns trechos do filme através do site http://www.myarchitectfilm.com e do canal oficial no youtube.

 

Desenhando a sua própria cidade

No meu último aniversário, ganhei um presente muito bacana, daqueles que você fala: “Nossa, que legal! Como ninguém pensou nisso antes?”.

Nós, arquitetos, quando vamos viajar, temos essa idéia fixa que a única idéia de se conhecer realmente uma cidade é andando por ela, por suas avenidas, ruas, ruelas, enfim. Somos aversos aos convencionais city-tours, o melhor a se fazer e esmiuçar a cidade a pé, de metrô ou ônibus. Não me entendam mal, eu mesma sou adepta a essa prática, mas acredito também que estamos cercados de estereótipos da arquitetura e frases feitas que ao invés de nos permitir novos aprendizados, acabam nos alienando, tornando o arquiteto uma pessoa extremamente blasé. Ou pra falar o português correto, boçal.

Mas essa discussão fica para a próxima.

Então, para aqueles que, como eu, pegam um mapa da cidade em questão e simplesmente saem andando, o escritório de design austríaco Walking Chair lançou um livro que possui uma idéia brilhante: o Urban Gridded Notebook.

Trata-se de um livro que, ao invés de palavras, possui mapas. E, quando eu digo mapas, eu digo apenas linhas e mais linhas que desenham a cidade. Nenhum nome de avenida, rua, ruela, nem linhas de metrô ou ônibus. Nem a númeração das páginas ele possui. Quer dizer, a numeração vem em algumas páginas, senão o livro não seria muito prático.

São cidades do mundo todo (e, antes que você pergunte, não, não tem São Paulo): Tokio, Nova York, Viena, Amsterdam, Paris, Hong Kong, Belo Horizonte, entre muitas outras, para se visitar e anotar tudo o que o dono do livro quiser: algum parque, uma livraria, uma loja, sei lá, o que você quiser escrever, desenhar. Os mapas são únicos em cada livro, são as cidades sob o ponto de vista de cada “leitor”.

Foi um presente muito legal que eu ganhei, agora só preciso preenchê-lo.

O Walking Chair possui outras produções bacanas, vale conferir em www.walking-chair.com

Lina Bo. in:PRIMEIRO: ESCOLAS

Engrossando o movimento dos consumidos pelo TFG, trago aqui alguns excertos de um texto que encontrei por esses dias e que, não por acaso, foi um alento. E ouso comentar também.
Trata-se de um texto da Lina, publicado em 1954 na revista Habitat, edição esta dedicada à experiência da arquitetura escolar paulista – especificamente sobre a iniciativa conhecida como «Convênio Escolar» ao longo dos anos anteriores. Ainda que a princípio pareça este um texto cujo domínio é restrito, acredito que haja nele entranhada uma reflexão sobre a arquitetura enquanto um continente, cujo pressuposto fundamental – e bastante – é o de que ela seja capaz de atravessar sua vida útil mantendo vivo o diálogo com as questões que a informam. E para isso certamente é preciso, antes de mais nada, algum calor. Proximidade, ver o objeto, o através e o que está além.

“Comecemos pelas escolas: se alguma coisa deve ser feita para “reformar” os homens, a primeira coisa é “formá-los”. O argumento é quase esgotado, avalanches de livros e opúsculos, os ecos de intermináveis discursos e preleções o acompanham; é natural que se deva começar pelas escolas, todos o sabem, é uma coisa adquirida, que como todas as coisas adquiridas passou logo para a rotina das coisas que não produzem mais efeitos. Fazer, escolas, fazer escolas, fazer escolas, está bem, fazê-las, o fato enquadra-se em iniciativas abstratas, em retumbantes decisões ministeriais: falta o interesse ardente, falta a “dramaticidade” da coisa.
É necessário dramatizar o problema das escolas, torná-lo vivo, presente, cotidiano.

O que é uma escola?

É um lugar onde se ensina a ler e a escrever, onde se aprende a consultar o relógio e a contar o tempo, onde se aprende sobretudo a ser orgulhoso do próprio país, agradecendo todas as noites a Deus por nos haver feito nascer em X, em lugar de Y, cujos habitantes são notoriamente muito menos inteligentes que nós.

Nas escolas estudam-se ainda, em ordem progressiva de tempo, muitas disciplinas, infinitas outras coisas, até o dia em que, ao deixar a escola, o complexo de todas estas coisas forma a bagagem, o viático para iniciar a viagem através da humanidade.

Como é a escola?

É a ESCOLA; com o cheiro todo especial de escola, com aspecto de escola, funcionamento de escola, um conjunto de escola que por toda a vida lembrará a ESCOLA, com tentativas abortadas de jardim, janelas estreitas, corredores, e a Diretoria; com um professor ou professora incitando os alunos com um sistema de treinadores de cavalos de corrida, estimulados pela chegada, pela medalha, pelas fitas ou prêmios.

Aquele cheiro de escola nos acompanha a vida toda, juntamente à bagagem-base de conhecimentos adquiridos que continuamos a pôr em prática, sem aplicar entretanto a própria capacidade de exame e de julgamento.

Diz-se: “Faço tal coisa porque é certo fazê-la, sempre a fiz, sei que é certo”.

Por que é certo fazê-la?

Um dia a mente se detém e circunscreve e analisa esta coisa, volta ao tempo e à origem daquela convicção, daquela crença, e a origem está lá, muito longe, na escola, inculcada na escola fortemente apoiada pelos pais que por sua vez sabem que é certo fazer esta coisa, porque é certo fazê-la, sem saber o porque; e a origem daquela convicção está ainda numa escola, ainda mais longínqua no tempo.

Responsabilidade da escola: ao exame agudo e penetrante aquela convicção revela-se errada, capaz de produzir consequências inauditas. Mas de quem, então, dependem as escolas? É um círculo vicioso: dependem dos homens que, por sua vez, devem ser formados em escolas.

Exprimimos o nosso pessimismo sobre a orientação geral das escolas baseados numa experiência pessoal longamente meditada. O nosso esforço maior foi o que fizemos para nos libertarmos de uma sobrestrutura cristalizada, de uma camisa de força formada, em nosso caso, por milênios de lugares comuns que, surgidos de esplêndidas renovações, tornam-se através da rotina dos séculos, lugares comuns adquiridos, mortos.

Dissemos nosso esforço; quem escreve nasceu na Europa e pertence à geração criada na época das escolas optimístico-esportivas por excelência, na época das presunções heróicas. Todo aquele castelo tinha sido preparado, antes de mais nada, nas escolas, palavra por palavra, folha por folha, nuance por nuance; aquelas crenças eram cômodas, estavam ali firmes, como rochedos a resolver as situações, defendendo idéias cômodas.

O esforço maior foi o de encontrar, não uma solução que evidentemente não era possível encontrar, mas uma maneira limpa de se adaptar aos fatos como suspeitávamos fossem na realidade –adaptar-se buscando com as próprias forças.

E o esforço maior foi o de nos libertarmos da sobrestrutura cristalizada, formada por milênios de lugares comuns, e adquirida desde a escola.

Pensamos que uma solução possível – e pareceu-nos a única – fosse a humildade, e pensamos que talvez na perpetuação desta atitude ter-se-ia podido abolir o nascimento periódico de “dogmas” que “verdadeiros” e brilhantes no instante do nascimento arrastam periodicamente os homens à catástrofe, transformando-se logo após em rotina adquirida e lugar comum.

Esta condição de humildade deve ser continuamente vivida e dramatizada para não se transformar ela própria em coisa adquirida, e o maior cuidado deve ser dedicado à formação da mentalidade “humilde”, extremamente civil e “contra a natureza”.

Acreditamos na possibilidade de evolução dos homens e na possibilidade de auto-aperfeiçoamento de cada ser humano.

A premissa para edifícios construídos em função de sedes escolares, à primeira vista, parece transpor o problema arquitetônico, mas é pelo contrário a ele estreitamente ligado.

As escolas devem ser expressas segundo as formas da arquitectura contemporânea que se inspira essencialmente no homem e na posição de “humildade” que mencionamos. As formas que se expandem, que se ligam com o exterior, o jardim, as janelas largas, aquele ar de “não severidade”, é o primeiro passo para a abolição de barreiras. A escola-fortim, gótica, normanda ou sem estilo mas com denominador comum de edifício-prisão, lembrando quase aos alunos que o estudo é um penoso dever, esta escola tornou-se longínqua e obsoleta. E o próprio fato que arquitetos modernos tenham sido chamados para projetar todas estas escolas, nos parece uma profecia.

Comecemos pelas escolas e sobretudo comecemos pela arquitetura”


					

Petra Blaisse

Ultimamente, acho que pelo tanto de tempo excessivo que tenho trabalhado e principalmente com a proximidade do tfg, eu tenho pensado muito no valor que a arquitetura tem para mim, e no geral na vida das pessoas. Fico pensando no que me faz gostar mais de um prédio que do outro, ou porque é que aquele lugar me traz felicidade, ou como é que alguns espaços funcionam.. E para mim é impressionante como a arquitetura pode acabar tendo um caráter pessoal.

Falando de espaços, tendo a gostar cada vez mais dos que são assim mesmo, bem pessoais, mesmo achando dificil definir o que deixa um espaço pessoal. Talvez seje quando você sente ali uma energia por trás, de que tem o “dedo” de alguma pessoa naquele espaço/ De alguma forma quando você chega num lugar assim, de alguma maneira você se contagia com essa energia, com a intenção que foi passada ali, pode ser frio, calor, pode ser triste, melancolico, feliz, animado, ou qualquer coisa que se queira…

Feita essa introdução eu resolvi postar aqui sobre uma arquiteta, designer, mas que vejo mais  como um artista de espaços, que consegue transformá-los de uma maneira muito bacana. Se chama Petra Blaisse, holandesa, assiti a uma palestra dela umas semanas atrás no Sesc Pompéia. Basicamente ela trabalha com texturas, na maioria das vezes traduzidas em cortinas (mas seus trabalhos são muito diversos). Na palestra ela falou sobre seu trabalho e vou passar aqui um parágrafo de anotação minha durante a palestra.

Seu trabalho é inspirado em estruturas, ela tem muitas fotos e desenhos da natureza que servem de inspiração. Estrutura traduzida em tecido, em cor, e em luz que passa e que fica, em claro e escuro, reflexos e transparências. As cortinas se movimentam, e por isso nunca sao olhadas e experimentadas da mesma maneira. Para cada trabalho uma pesquisa coerente, que utilize os materias disponiveis no local, ou que tenham relação com o lugar, isso principalmente em seus trabalhos de paisagismo. Faz instalações e intervenções permanentes.

Colocarei então para ilustrar  fotos de duas de suas intervenções. Primeiro a cortina feita em 1999 para o Hackney Empire Theater  em Londres, com um tipo de costura a mão que ela aprendeu no colégio quando era criança, que tem uma presença realmente impressionante no teatro. Em seguida o pavilhão que ela fez para Villa Manin Contemporary Art Center em 2005, um pavilhão que eram muitos guardachuvas, individuais, de um tecido transparente e refletor ao mesmo tempo, um efeito incrível, e nas palavras dela “you can see through, create your own space, you can move, and it reflects the sky and transform the space”.

Hackney Empire Theater | London

Hackney Empire Theater | London

Reflitutti | Villa Manin

Reflitutti | Villa Manin

o site dela esta aqui pra quem quiser ver mais : www.insideoutside.nl

até a próxima.

Reinventar a Emancipação Social

Como eu ando mergulhado, há um bom tempo, no TFG (Trabalho final de Graduação) achei justo que o primeiro post neste blog seja referente a um dos livros que considero mais interessante desse processo.

Na verdade o livro é o segundo volume de uma coleção chamada “Reinventar a Emancipação Social: Para Novos Manifestos” e chama-se “Produzir para viver – os caminhos da produção não capitalista”, organização de Boaventura de Souza Santos, professor da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra.

“Trata-se de um vasto conjunto de estudos em que se dá conta de como, em diferentes países, os grupos sociais subalternos se organizam para resistir à exclusão social produzida pela globalização neoliberal e o fazem em nome da aspiração por um mundo melhor que julgam possível e a que sentem ter direito”

Ainda não consegui ler os textos todos, apenas a introdução e o texto de João Marcos de Almeida Lopes “‘O dorso da cidade’: os sem-terra e a concepção de uma outra cidade”. O primeiro dá uma noção das alternativas de produção não capitalista e o segundo relata a luta de um assentamento de sem terras desde a ocupação de um latifúndio no interior do Paraná até a concepção e construção “de uma cidade alternativa no território onde se estabeleceram”.

Ler esses textos faz perceber o quanto estamos inseridos numa lógica de produção perversa, mas ao mesmo tempo aponta alternativas para isso, ainda que cheias de contradições e conflitos.

Vale a leitura.