louis kahn, por outro lado.

Descobri – e conferi – esses dias um filme feito por Nathanael Kahn, que não por acaso é filho de Louis I. Kahn, arquiteto moderno americano do século passado. Ainda que possa ser bastante interessante conhecer essas figuras de um ponto de vista mais humano, o que realmente me chamou a atenção em «My Architect» (dvd, 2003) foram as tomadas envolvendo os edifícios projetados por Kahn. Mais do que um tratamento incrível das imagens de projetos já bastante conhecidos – como é o caso do Salk Institute, na California – a grande surpresa fica por conta das imagens que apresentam, pela primeira vez em vídeo, o complexo de edifícios do governo de Bangladesh – obra finalizada em 1984, mais de uma década depois da morte do arquiteto – assim como diversas obras da maior relevância e que, especialmente aqui no brasil, jamais receberam publicações tão cuidadosas.

Infelizmente não consegui nenhum link para o vídeo completo. Entretanto é possível assistir alguns trechos do filme através do site http://www.myarchitectfilm.com e do canal oficial no youtube.

 

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(des)aparições urbanas

 

Durante estes últimos dias recebi esse link de um amigo estrangeiro que me perguntou, na mesma mensagem, se a matéria deste vídeo era verdadeira. Se por um lado já tínhamos algum tempo atrás conversado mais demoradamente sobre os aspectos gerais de intervenções urbanas nos países de cada um – e o vídeo em muito «contradiz» aquilo que eu coloquei a ele num primeiro momento – havia ainda um agravante: as narrações do vídeo são feitas em português, ou seja, no caso dele apenas a imagem falou pelo acontecido.

Tive então de tentar explicar o caráter de «exceção» desse tipo de intervenção em são paulo, o que não durou dois períodos da sentença: logo lembrei da desmontagem do são vito, que se não me falha já foi concluída. Por mais que hajam questões diversas que fazem do caso do são vito algo mais ruidoso, custo um pouco a acreditar que a única coisa que une estes dois episódios seja o fato de eles terem, numa questão de tempo, sido suprimidos da paisagem e do solo da cidade.

Provavelmente essa sensação de estar vendo algo «inédito» não é/foi/será só minha. Mas porque provavelmente uma intervenção incisiva como essa no espaço da cidade – tomando aqui de empréstimo a forma como meus avós referiam-se ao centro há mais de 30 anos atrás – acaba ferindo um pouco a sensação de estagnação que normalmente temos quando esmurecemos ao pensar que uma série de coisas promissoras sobre as quais já ouvimos falar –  e até mesmo rascunhamos nos nossos projetos, de um jeito bem naíve mesmo – não seriam jamais realizáveis por tratarem-se de séries de operações onerosíssimas, que dependeriam ainda de ações de contorno surreais, enfim, por ferirem uma continuidade que ninguém se atreve à explicar muito bem do quê.

Só me parecem bem curiosos esses elãs de vontade política que surgem junto com aquela primeira ereção da manhã de algum general ou de algum empreiteiro calvinista disfarçado de duende da sustentabilidade. Fica então um pouco difícil entender qual era aquela pré-existência que devia ser tão custosamente mantida ali, ou porque construir coisas com ares de preexistência inata, simplesmente, a que tipo de interesses se deve atender neste exato momento.

O general com priapismo tinha a seu favor um discurso bem transversal socialmente falando. Metrô, de londres, de nova iorque, do centro de são paulo. até mesmo quem nem sabe que esses lugares existe direito gostou da idéia – ainda que distante – de chegar com alguma dignidade entre casa e trabalho, ou mesmo pra um passeio. O que de forma nenhuma surpreende, aliás, é o mínimo que se espera. Pois que foram abertos uns 20 quilômetros de uma trincheira urbana – quase uma vala comum, escavada manualmente – eis que a Sé é a grande esquina de são paulo, e ainda tem gente esperando trem-fantasma na plataforma a uns trinta quilômetros dali. Graças à maior carga de dinamite da américa latina até então, temos uma condição muito pior do que  a que provavelmente encontraríamos um pouco antes de 1975. Ok, era o que os meios da época «permitiam». Mas e depois?

Da mesma forma, na linha do weberianismo sustentável, sabemos bem quais as intenções para aquele espaço. Pergunto-me sobre o que pode ou certamente acontecerá com o lote devoluto do são vito.  Será a proa da nova luz, que encontra a «encosta» da colina histórica – mediante travessia da avenida do estado, «pouco recomendável» nas CNTP de uma praça que honre seus propósitos (?) e que fará as vezes de «praça do mercado», a planice do «porto geral». ficam as perguntas: vai ter pelourinho? e cidade baixa? jorge amado de bronze sentadinho? vai ter ferry do tamanduateí pro rio da prata? já chamou o calatrava pra estaiar o complexo viário sobre a várzea do carmo? vai ter camiñito vertical?. Mas e depois?

 

sábio antônio fagundes!

 

Lina Bo. in:PRIMEIRO: ESCOLAS

Engrossando o movimento dos consumidos pelo TFG, trago aqui alguns excertos de um texto que encontrei por esses dias e que, não por acaso, foi um alento. E ouso comentar também.
Trata-se de um texto da Lina, publicado em 1954 na revista Habitat, edição esta dedicada à experiência da arquitetura escolar paulista – especificamente sobre a iniciativa conhecida como «Convênio Escolar» ao longo dos anos anteriores. Ainda que a princípio pareça este um texto cujo domínio é restrito, acredito que haja nele entranhada uma reflexão sobre a arquitetura enquanto um continente, cujo pressuposto fundamental – e bastante – é o de que ela seja capaz de atravessar sua vida útil mantendo vivo o diálogo com as questões que a informam. E para isso certamente é preciso, antes de mais nada, algum calor. Proximidade, ver o objeto, o através e o que está além.

“Comecemos pelas escolas: se alguma coisa deve ser feita para “reformar” os homens, a primeira coisa é “formá-los”. O argumento é quase esgotado, avalanches de livros e opúsculos, os ecos de intermináveis discursos e preleções o acompanham; é natural que se deva começar pelas escolas, todos o sabem, é uma coisa adquirida, que como todas as coisas adquiridas passou logo para a rotina das coisas que não produzem mais efeitos. Fazer, escolas, fazer escolas, fazer escolas, está bem, fazê-las, o fato enquadra-se em iniciativas abstratas, em retumbantes decisões ministeriais: falta o interesse ardente, falta a “dramaticidade” da coisa.
É necessário dramatizar o problema das escolas, torná-lo vivo, presente, cotidiano.

O que é uma escola?

É um lugar onde se ensina a ler e a escrever, onde se aprende a consultar o relógio e a contar o tempo, onde se aprende sobretudo a ser orgulhoso do próprio país, agradecendo todas as noites a Deus por nos haver feito nascer em X, em lugar de Y, cujos habitantes são notoriamente muito menos inteligentes que nós.

Nas escolas estudam-se ainda, em ordem progressiva de tempo, muitas disciplinas, infinitas outras coisas, até o dia em que, ao deixar a escola, o complexo de todas estas coisas forma a bagagem, o viático para iniciar a viagem através da humanidade.

Como é a escola?

É a ESCOLA; com o cheiro todo especial de escola, com aspecto de escola, funcionamento de escola, um conjunto de escola que por toda a vida lembrará a ESCOLA, com tentativas abortadas de jardim, janelas estreitas, corredores, e a Diretoria; com um professor ou professora incitando os alunos com um sistema de treinadores de cavalos de corrida, estimulados pela chegada, pela medalha, pelas fitas ou prêmios.

Aquele cheiro de escola nos acompanha a vida toda, juntamente à bagagem-base de conhecimentos adquiridos que continuamos a pôr em prática, sem aplicar entretanto a própria capacidade de exame e de julgamento.

Diz-se: “Faço tal coisa porque é certo fazê-la, sempre a fiz, sei que é certo”.

Por que é certo fazê-la?

Um dia a mente se detém e circunscreve e analisa esta coisa, volta ao tempo e à origem daquela convicção, daquela crença, e a origem está lá, muito longe, na escola, inculcada na escola fortemente apoiada pelos pais que por sua vez sabem que é certo fazer esta coisa, porque é certo fazê-la, sem saber o porque; e a origem daquela convicção está ainda numa escola, ainda mais longínqua no tempo.

Responsabilidade da escola: ao exame agudo e penetrante aquela convicção revela-se errada, capaz de produzir consequências inauditas. Mas de quem, então, dependem as escolas? É um círculo vicioso: dependem dos homens que, por sua vez, devem ser formados em escolas.

Exprimimos o nosso pessimismo sobre a orientação geral das escolas baseados numa experiência pessoal longamente meditada. O nosso esforço maior foi o que fizemos para nos libertarmos de uma sobrestrutura cristalizada, de uma camisa de força formada, em nosso caso, por milênios de lugares comuns que, surgidos de esplêndidas renovações, tornam-se através da rotina dos séculos, lugares comuns adquiridos, mortos.

Dissemos nosso esforço; quem escreve nasceu na Europa e pertence à geração criada na época das escolas optimístico-esportivas por excelência, na época das presunções heróicas. Todo aquele castelo tinha sido preparado, antes de mais nada, nas escolas, palavra por palavra, folha por folha, nuance por nuance; aquelas crenças eram cômodas, estavam ali firmes, como rochedos a resolver as situações, defendendo idéias cômodas.

O esforço maior foi o de encontrar, não uma solução que evidentemente não era possível encontrar, mas uma maneira limpa de se adaptar aos fatos como suspeitávamos fossem na realidade –adaptar-se buscando com as próprias forças.

E o esforço maior foi o de nos libertarmos da sobrestrutura cristalizada, formada por milênios de lugares comuns, e adquirida desde a escola.

Pensamos que uma solução possível – e pareceu-nos a única – fosse a humildade, e pensamos que talvez na perpetuação desta atitude ter-se-ia podido abolir o nascimento periódico de “dogmas” que “verdadeiros” e brilhantes no instante do nascimento arrastam periodicamente os homens à catástrofe, transformando-se logo após em rotina adquirida e lugar comum.

Esta condição de humildade deve ser continuamente vivida e dramatizada para não se transformar ela própria em coisa adquirida, e o maior cuidado deve ser dedicado à formação da mentalidade “humilde”, extremamente civil e “contra a natureza”.

Acreditamos na possibilidade de evolução dos homens e na possibilidade de auto-aperfeiçoamento de cada ser humano.

A premissa para edifícios construídos em função de sedes escolares, à primeira vista, parece transpor o problema arquitetônico, mas é pelo contrário a ele estreitamente ligado.

As escolas devem ser expressas segundo as formas da arquitectura contemporânea que se inspira essencialmente no homem e na posição de “humildade” que mencionamos. As formas que se expandem, que se ligam com o exterior, o jardim, as janelas largas, aquele ar de “não severidade”, é o primeiro passo para a abolição de barreiras. A escola-fortim, gótica, normanda ou sem estilo mas com denominador comum de edifício-prisão, lembrando quase aos alunos que o estudo é um penoso dever, esta escola tornou-se longínqua e obsoleta. E o próprio fato que arquitetos modernos tenham sido chamados para projetar todas estas escolas, nos parece uma profecia.

Comecemos pelas escolas e sobretudo comecemos pela arquitetura”