A favor da margem

Com todos esse acontecimentos da USP, o que mais me espanta é a reação linha dura da própria comunidade estudantil. Nem sei se podemos chamar de “comunidade”, porque o que vi até agora foi um verdadeiro show de ofensas, falta de diálogo e vontade zero de ouvir o que o outro tem a dizer. Cada um defendendo o seu lado e seja o que Deus quiser.

Por acaso tenho estudado muito a época da Tropicália. Não, não vou fazer comparações com a ditadura. Superemos. Mas uma coisa muito presente, hoje e sempre, no Brasil e em qualquer parte do mundo (pelo menos do mundo capitalista), é esse conceito assustador de massa. Antes combatíamos o sistema. Agora, o sistema é tão forte, tão complexo e organizado, que não necessita mais se defender. A massa o defende e o segue, todos muito bem comportados.

Por isso odeio escadas rolantes. É uma analogia tosca, mas me sinto completamente parte do rebanho, esperando minha vez de subir ou descer. Em cada escada rolante me deprimo e penso: é, o sistema é maior que eu.

Voltando à tropicália, nessa época surgiu, assim como em muitas outras épocas e em outros movimentos, uma galera que ao menos tentava sair desse fluxo, desse rio de pessoas caminhando sem saber porque. Eles queriam ir pra margem. Já falaram do Hélio Oiticica aqui, mas sempre vale repetir.

A imagem clássica da Tropicália

Eu particularmente acredito na revolução através da arte, hoje. Já acreditei de outras formas e não acho que seja a única forma, mas não vem ao caso. O que vem ao caso é que estamos cada vez mais próximos de trabalhar, de ser alguém e ser mais um na máquina. Um tfg é importante, mas não é tudo. Um diploma é importante, mas o continuar pensando e agindo é mais. Tenho medo de um dia ser uma pessoa que só pensa o mundo sentadinho no conforto do lar, na minha poltrona mais confortável depois de um dia de trabalho mecânico, através de redes sociais. Tenho medo de que chegue o dia onde a gente esteja mais preocupado em trabalhar, ser “alguém” na vida, ter filhos e uma boa banheira em casa. E só.

Por isso esse post é um convite quase ingênuo, porém verdadeiro, de que sejamos cada vez mais marginais. De que saiamos o máximo possível desse rio e desse rebanho. Porque o Oiticica estava certo. Conseguir viver à margem é mesmo um ato de heroísmo.

Beijos povo!

Andando por aí

(Mal o post corrido, TFG feelings)

Existem coisas que só acontecem se você anda pela cidade. E coisas que só acontecem se você OLHA pra cidade.

Esse é o caixote que eu vi no centro hoje a noite, do lado do metrô Anhangabaú. Perguntei pro dono da loja: é de vocês, posso pegar? Ele deu de ombros (já percebi que é melhor sempre ir fazendo, quando você pergunta as pessoas falam não por hábito). Agora é meu. Vai ser devidamente lixado, pintado e envernizado e vai virar uma linda prateleira pras minhas máquinas fotográficas.

E esse é o Floquinho, o cão feliz. Ele é três vezes menor que um caixote de feira.

É isso aí turma.

Lembranças de Velhos

Bairro do Pari em 194etantos

 

Bom, meu TFG é sobre o Pari e, consequentemente, sobre a minha família e a minha avó, que mora aqui desde sempre na minha cabeça. E como eu estou na reta final e sem tempo de pensar em outros temas, vamos com um dos que estudei.

Tem um livro da Ecléa Bosi que chama “Memória e Sociedade – Lembranças de Velhos”. Ele é um livro muito legal por muitas razões, mas vou citar as duas principais, na minha humilde opinião. A primeira é que ele coloca a memória como um ponto chave na construção e destruição das cidades. De uma forma muito sensível, alia a construção coletiva do espaço com a construção mental individual de cada um. Eu dependo do outro para afirmar minhas memórias, e nos dependemos mutuamente para assegurar que elas continuem existindo. Quem já entrou na atlética da FAU e se sentiu muito melhor porque havia um amigo do sexto ano lá também entende o que estou falando. Quando temos com a gente uma pessoa que também vivenciou aqueles momentos, parece que lembrá-los juntos faz mais sentido. Que interesse um bixo tem no nosso primeiro interfau? Nenhum, e parece ser sem sentido ficar sozinho lá falando, como um velho.

E é isso que acontece com a cidade de São Paulo e tantas outras. Vem uma política dominada pela especulação imobiliária e sem nenhum tipo de controle e simplesmente destrói toda a memória do bairro, descaracterizando-o completamente, a ponto da comunidade que ali vive não ter condições financeiras e psicológicas de continuar naquele espaço. Afinal de contas, desconsiderando o alto preço das coisas, porque minha avó continuaria sozinha num bairro cheio de prédios, escritórios, sem padaria, sem os vizinhos jogando bocha aos domingos, sem os amigos conversando na porta de casa? Provavelmente ela iria morar com algum dos meus tios e adeus vida própria, adeus memória, adeus Pari. Achei muito foda isso, destruir a memória através da destruição física é um jeito muito comum e perverso de dominação de um povo. Afinal, não foi isso que Hausmann fez em Paris, destruindo as vielas e ruazinhas, deixando todas as ruas largas e com condições de passar um tanque de guerra? E mais que tudo isso, o mais interessante, ao construir grandes avenidas que se parecem com qualquer outro lugar do mundo, você se sente cosmopolita, se sente urbano, e perde o sentido de grupo que causam as revoluções. Somos apenas um na Faria Lima, mas não somos mais um no nosso bairro (falando do Pari).

É triste ver que São Paulo não tem memória.

(eu ia falar da segunda coisa mas ia ficar gigante, então fica como um teaser pro meu próximo post, quem sabe)

Mulherada na arte de rua!

Eu curto muito grafite e ultimamente ainda mais. Acho que é uma das poucas formas de intervenção urbana que a gente vê pela cidade, uma forma de interagir com o espaço e de fazer com que esse espaço seja percebido de fato. Vivemos um tempo onde o espaço serve só como dinâmica de movimento, como o “acaso” que nos faz estar ali enquanto na verdade estamos querendo chegar em outro espaço, geralmente privado. Por isso não olhamos, não percebemos e não interagimos, como se não fosse nosso. E o grafite e toda a “street art” estão aí pra inverter um pouco essa lógica.

E se até algum tempo isso era coisa de muleque, vou mostrar três artistas que eu gosto muito e tenho acompanhado o trabalho.

A primeira é a Miso, uma  artista de herança ucraniana chamada Stanislava Pinchuk. Ela tem 21 anos e mora em Melbourne, Austrália. O trabalho que mais chama atenção são os lambe-lambe babushkas (avó, em russo), geralmente em pares, pelas ruas da cidade. As instalações, geralmente femininas, funcionam mesmo como “guardiãs” dos locais onde estão instaladas.

Outra que eu curto muito é uma sul africana que é conhecida como Faith47. Seus desenhos, super fortes e com uma alta carga de crítica social, foram depois mudando pras frases com caligrafias caprichadas que são as mais conhecidas hoje em dia (mas eu ainda preferia a outra fase).

Mesmo com esse apelido, ela disse o seguinte pra Zupi: “Eu não tenho fé em nada. Acredito que tudo é um vácuo, vazio. E ainda assim, tudo é cheio, ao mesmo tempo. Não tenho ilusões de uma religão que possa explicar o porquê de estarmos aqui. Talvez nós sejamos uma unidade com o universo em expansão e estejamos sendo teimosos e lutando contra esse fato, o que na realidade significa que estamos lutando contra nós mesmos. Algo assim”. Seguem as fotos!

Por fim, uma brasileira! A Magrela (ou http://www.magcrua.blogspot.com)é figurinha conhecida da cidade de São Paulo. Em praticamente todos os bairros tem algum desenhos de suas mulheres lânguidas, tristes, quase que se desmanchando pelos muros pálidos de SP (que poético isso #not). Se você começar a prestar atenção, vai ver uma das “magrelas” em todo o canto! A Sinhá também trabalha sempre com ela, mas isso fica pra sua pesquisa! rs

Essa menina largou o curso de Administração e foi desenhar, que era o que ela realmente curtia. E coloca um traço muito característico, sendo reconhecida em qualquer lugar. Agora também lançou umas peças de roupa (a Crua), assim mesmo no Facebook, com estampas lindas e provando que grafite é arte e também se transporta pra qualquer meio de expressão!

Essa é fácil de achar hein?

É isso galerê! Planos de intervir no meio urbano!!! Acaba logo TE-EFE-GE!!! Beijocas

Gui Mohallem

Hoje abre no MuBe a exposição Ensaio para a Loucura, do fotógrafo mineiro Gui Mohallem.

Mohallem tem ainda um blog  coletivo (IHI!) chamado Incubadora junto com os também fotógrafos Breno Rotatori e Felipe Russo onde eles compartilham o processo de construção de suas pesquisas e projetos.

A exposição é uma revisita ao retrato contemporâneo e ao movimento. Mohallem convida os amigos para os retratos e gira junto com eles, enquanto fotografa. Segue aqui o texto curatorial da exposição pra entender melhor:

As vertigens da loucura

O movimento suspende e desordena a narrativa do sujeito: não há rosto, não há roupas, não há traços além de um desordenado borrão de cor, onde a figura se mistura ao fundo, como que por derretimento. O movimento sacode e expõe, ao sublinhá-la ou permitir que seja abandonada, a interseção entre máscara e boa intenção em que vivemos. O movimento exclui o verbo, desestabiliza os termos do sujeito, abre a porta para a irregularidade; o movimento chega de surpresa e nós submergimos nele.

Tudo isso é obtido a partir de uma oferta, de um dos dois lados: o retratado em potencial lê sobre o projeto e se oferece para participar, ou um amigo é convidado. Amigo ou desconhecido, o retratado escolhe um cenário, e nele a foto acontece: gui segura-o pelo braço e começa a girá-lo e a girá-lo, como um lançador de martelo, e a fotografar no caos da rotação.

A firme mecânica que ocorre, bruta, entre os dois corpos (onde um se entrega – se abandona – ao movimento rotatório) faz com que o corpo rode, como as crianças rodam sozinhas em busca da tontura (em busca da instabilidade). Nos metamorfoseamos; imagem já não é nosso retrato: é um fantasma, uma coruja, uma gárgula fundida ao seu cenário – uma pura força cega como os gritos no A Balsa da Medusa; tudo torna-se um desvio, e nos esforçamos para sair do lugar indistinto (e fracassamos necessariamente); chegamos ao caroço da imagem ideal, a nossa imagem, e ela nos diz e não nos diz respeito. É como se o movimento de todas as horas passadas no lugar que escolhemos fossem condensadas, e então o retrato torna-se a molécula da imagem, um ponto mínimo onde o mais fundamental é combinado e reduzido à sua potência, e a força atômica da dor (em melancolia ou perversão) torna-se presente. E cá estamos nós, sem norte ou oriente, jogados como sob uma avalanche, e submersos. E cá estamos nós, perdidos.

Texto curatorial por Gabriel Bogosian

Aqui seguem também seu site –  http://guimohallem.com/

E seu Ficlkr – http://www.flickr.com/photos/gui_mohallem

Vale a visita!

O que? Ensaio para a Loucura, exposição individual de Gui Mohallem
Quando?
Abertura dia 03.09.2011 :: visitação de 04.09.2011 até 02.10.2011 de terça a domingo, das 10h às 19h.
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Grátis
Onde?
MuBE :: Sala Burle Marx :: Avenida Europa, 218 – São Paulo, SP