Moda, modos e sexualidade na história do Brasil

Voltei a ler romances e coisas não relacionadas à arquitetura ou ao urbanismo. Mas como cabeça de arquiteto respira arquitetura até no meio do mar (eu, pelo menos, sou meio assim), queria comentar um pouco as minhas percepções sobre minha leitura atual.

Estou lendo um livro chamado “Histórias Íntimas – Sexualidade e Erotismo Na História do Brasil”, de Mary Del Priore. Ela conta como eram as relações amorosas e sexuais desde o Brasil colonial e suas transformações ao longo dos séculos, muitas delas pautadas pelas características peculiares à história do Brasil e outras importadas por uma exaltação europeia ou mesmo porque na Europa se avançava em pesquisas e relações sociais, o que o Brasil incorporou por diversas razões.

Por outro lado, Richard Sennett (uma das minhas leituras de faculdade) apresenta em dois livros, por outros vieses, as relações sociais na vida urbana, no séc. XVII e XIX. Se Sennett traz um olhar pro espaço urbano e pro homem público, Mary Del Priore desvenda a esfera privada no íntimo familiar (deixando claro que Sennett trata da Europa, sobretudo de Paris e Londres, enquanto Mary escreve sobre o Brasil).

Algo que eu acho muito interessante nessa leitura é perceber o quanto os espaços públicos e os momentos de aparição pública refletem um momento da sociedade, as relações entre os indivíduos e a opressão à mulher nessa sociedade.

Se, no séc. XIX, há uma exaltação à vida privada, da privacidade, como descrito em “O Declínio do homem público” de Sennett, dessa mesma forma há uma criminalização ao prazer feminino. Se as mulheres podem ir à ópera, em uma exposição pública no templo da burguesia, elas não podem ser vistas desacompanhadas, mesmo que seus maridos possam aparecer publicamente com outras mulheres, haja vista o papel crucial do poder e da potência do homem e a função reclusa de procriadora da mulher. E, se as “mulheres da sociedade” vão ao teatro cheias de pudor, é com as atrizes e com as prostitutas que os homens se divertiam depois do espetáculo. Às mulheres, a reclusão, o pudor, os romances burgueses; aos homens, a liberdade e o orgasmo.

Da mesma forma, as rápidas transformações do começo do séc. XX, o automóvel, a fábrica, a velocidade, são acompanhadas – dialeticamente – pela exclusão do uso do espartilho, em um primeiro momento pela liberdade das curvas (as godinhas de Renoir, de Degas), depois pela descoberta dos benefícios da ginástica e o progressivo culto a corpos esbeltos (visto pelas telas de modigliani) até chegar hoje à cultura a uma magreza extrema.

“Não se associava mais o redondo das formas – as ‘cheinhas’ – à saúde, ao prazer, à pacífica prosperidade burguesa que lhes permitia comer muito, do bom e do melhor. A obesidade começa a tornar-se um critério determinante da feiura, representando o universo do vulgar, em oposição ao elegante, fino e raro. (…) A gordura opunha-se aos novos tempos, que exigiam corpos ágeis e rápidos. A magreza tinha mesmo algo de libertário: leves, as mulheres moviam-se mais e mais rapidamente, cobriam-se menos, com vestidos mais curtos e eestreitos, estavam nas ruas” (Mary Del Priore: “Histórias Íntimas – Sexualidade e Erotismo Na História do Brasil”, p. 115-116).

Perceber as relações sociais no urbano, a partir de elementos da sociologia, da moda, dos espaços produzidos; ter essa mudança de olhar, de visão de mundo, foram, talvez, o ganho mais sensível da graduação.

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