(des)aparições urbanas

 

Durante estes últimos dias recebi esse link de um amigo estrangeiro que me perguntou, na mesma mensagem, se a matéria deste vídeo era verdadeira. Se por um lado já tínhamos algum tempo atrás conversado mais demoradamente sobre os aspectos gerais de intervenções urbanas nos países de cada um – e o vídeo em muito «contradiz» aquilo que eu coloquei a ele num primeiro momento – havia ainda um agravante: as narrações do vídeo são feitas em português, ou seja, no caso dele apenas a imagem falou pelo acontecido.

Tive então de tentar explicar o caráter de «exceção» desse tipo de intervenção em são paulo, o que não durou dois períodos da sentença: logo lembrei da desmontagem do são vito, que se não me falha já foi concluída. Por mais que hajam questões diversas que fazem do caso do são vito algo mais ruidoso, custo um pouco a acreditar que a única coisa que une estes dois episódios seja o fato de eles terem, numa questão de tempo, sido suprimidos da paisagem e do solo da cidade.

Provavelmente essa sensação de estar vendo algo «inédito» não é/foi/será só minha. Mas porque provavelmente uma intervenção incisiva como essa no espaço da cidade – tomando aqui de empréstimo a forma como meus avós referiam-se ao centro há mais de 30 anos atrás – acaba ferindo um pouco a sensação de estagnação que normalmente temos quando esmurecemos ao pensar que uma série de coisas promissoras sobre as quais já ouvimos falar –  e até mesmo rascunhamos nos nossos projetos, de um jeito bem naíve mesmo – não seriam jamais realizáveis por tratarem-se de séries de operações onerosíssimas, que dependeriam ainda de ações de contorno surreais, enfim, por ferirem uma continuidade que ninguém se atreve à explicar muito bem do quê.

Só me parecem bem curiosos esses elãs de vontade política que surgem junto com aquela primeira ereção da manhã de algum general ou de algum empreiteiro calvinista disfarçado de duende da sustentabilidade. Fica então um pouco difícil entender qual era aquela pré-existência que devia ser tão custosamente mantida ali, ou porque construir coisas com ares de preexistência inata, simplesmente, a que tipo de interesses se deve atender neste exato momento.

O general com priapismo tinha a seu favor um discurso bem transversal socialmente falando. Metrô, de londres, de nova iorque, do centro de são paulo. até mesmo quem nem sabe que esses lugares existe direito gostou da idéia – ainda que distante – de chegar com alguma dignidade entre casa e trabalho, ou mesmo pra um passeio. O que de forma nenhuma surpreende, aliás, é o mínimo que se espera. Pois que foram abertos uns 20 quilômetros de uma trincheira urbana – quase uma vala comum, escavada manualmente – eis que a Sé é a grande esquina de são paulo, e ainda tem gente esperando trem-fantasma na plataforma a uns trinta quilômetros dali. Graças à maior carga de dinamite da américa latina até então, temos uma condição muito pior do que  a que provavelmente encontraríamos um pouco antes de 1975. Ok, era o que os meios da época «permitiam». Mas e depois?

Da mesma forma, na linha do weberianismo sustentável, sabemos bem quais as intenções para aquele espaço. Pergunto-me sobre o que pode ou certamente acontecerá com o lote devoluto do são vito.  Será a proa da nova luz, que encontra a «encosta» da colina histórica – mediante travessia da avenida do estado, «pouco recomendável» nas CNTP de uma praça que honre seus propósitos (?) e que fará as vezes de «praça do mercado», a planice do «porto geral». ficam as perguntas: vai ter pelourinho? e cidade baixa? jorge amado de bronze sentadinho? vai ter ferry do tamanduateí pro rio da prata? já chamou o calatrava pra estaiar o complexo viário sobre a várzea do carmo? vai ter camiñito vertical?. Mas e depois?

 

sábio antônio fagundes!

 

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