Lina Bo. in:PRIMEIRO: ESCOLAS

Engrossando o movimento dos consumidos pelo TFG, trago aqui alguns excertos de um texto que encontrei por esses dias e que, não por acaso, foi um alento. E ouso comentar também.
Trata-se de um texto da Lina, publicado em 1954 na revista Habitat, edição esta dedicada à experiência da arquitetura escolar paulista – especificamente sobre a iniciativa conhecida como «Convênio Escolar» ao longo dos anos anteriores. Ainda que a princípio pareça este um texto cujo domínio é restrito, acredito que haja nele entranhada uma reflexão sobre a arquitetura enquanto um continente, cujo pressuposto fundamental – e bastante – é o de que ela seja capaz de atravessar sua vida útil mantendo vivo o diálogo com as questões que a informam. E para isso certamente é preciso, antes de mais nada, algum calor. Proximidade, ver o objeto, o através e o que está além.

“Comecemos pelas escolas: se alguma coisa deve ser feita para “reformar” os homens, a primeira coisa é “formá-los”. O argumento é quase esgotado, avalanches de livros e opúsculos, os ecos de intermináveis discursos e preleções o acompanham; é natural que se deva começar pelas escolas, todos o sabem, é uma coisa adquirida, que como todas as coisas adquiridas passou logo para a rotina das coisas que não produzem mais efeitos. Fazer, escolas, fazer escolas, fazer escolas, está bem, fazê-las, o fato enquadra-se em iniciativas abstratas, em retumbantes decisões ministeriais: falta o interesse ardente, falta a “dramaticidade” da coisa.
É necessário dramatizar o problema das escolas, torná-lo vivo, presente, cotidiano.

O que é uma escola?

É um lugar onde se ensina a ler e a escrever, onde se aprende a consultar o relógio e a contar o tempo, onde se aprende sobretudo a ser orgulhoso do próprio país, agradecendo todas as noites a Deus por nos haver feito nascer em X, em lugar de Y, cujos habitantes são notoriamente muito menos inteligentes que nós.

Nas escolas estudam-se ainda, em ordem progressiva de tempo, muitas disciplinas, infinitas outras coisas, até o dia em que, ao deixar a escola, o complexo de todas estas coisas forma a bagagem, o viático para iniciar a viagem através da humanidade.

Como é a escola?

É a ESCOLA; com o cheiro todo especial de escola, com aspecto de escola, funcionamento de escola, um conjunto de escola que por toda a vida lembrará a ESCOLA, com tentativas abortadas de jardim, janelas estreitas, corredores, e a Diretoria; com um professor ou professora incitando os alunos com um sistema de treinadores de cavalos de corrida, estimulados pela chegada, pela medalha, pelas fitas ou prêmios.

Aquele cheiro de escola nos acompanha a vida toda, juntamente à bagagem-base de conhecimentos adquiridos que continuamos a pôr em prática, sem aplicar entretanto a própria capacidade de exame e de julgamento.

Diz-se: “Faço tal coisa porque é certo fazê-la, sempre a fiz, sei que é certo”.

Por que é certo fazê-la?

Um dia a mente se detém e circunscreve e analisa esta coisa, volta ao tempo e à origem daquela convicção, daquela crença, e a origem está lá, muito longe, na escola, inculcada na escola fortemente apoiada pelos pais que por sua vez sabem que é certo fazer esta coisa, porque é certo fazê-la, sem saber o porque; e a origem daquela convicção está ainda numa escola, ainda mais longínqua no tempo.

Responsabilidade da escola: ao exame agudo e penetrante aquela convicção revela-se errada, capaz de produzir consequências inauditas. Mas de quem, então, dependem as escolas? É um círculo vicioso: dependem dos homens que, por sua vez, devem ser formados em escolas.

Exprimimos o nosso pessimismo sobre a orientação geral das escolas baseados numa experiência pessoal longamente meditada. O nosso esforço maior foi o que fizemos para nos libertarmos de uma sobrestrutura cristalizada, de uma camisa de força formada, em nosso caso, por milênios de lugares comuns que, surgidos de esplêndidas renovações, tornam-se através da rotina dos séculos, lugares comuns adquiridos, mortos.

Dissemos nosso esforço; quem escreve nasceu na Europa e pertence à geração criada na época das escolas optimístico-esportivas por excelência, na época das presunções heróicas. Todo aquele castelo tinha sido preparado, antes de mais nada, nas escolas, palavra por palavra, folha por folha, nuance por nuance; aquelas crenças eram cômodas, estavam ali firmes, como rochedos a resolver as situações, defendendo idéias cômodas.

O esforço maior foi o de encontrar, não uma solução que evidentemente não era possível encontrar, mas uma maneira limpa de se adaptar aos fatos como suspeitávamos fossem na realidade –adaptar-se buscando com as próprias forças.

E o esforço maior foi o de nos libertarmos da sobrestrutura cristalizada, formada por milênios de lugares comuns, e adquirida desde a escola.

Pensamos que uma solução possível – e pareceu-nos a única – fosse a humildade, e pensamos que talvez na perpetuação desta atitude ter-se-ia podido abolir o nascimento periódico de “dogmas” que “verdadeiros” e brilhantes no instante do nascimento arrastam periodicamente os homens à catástrofe, transformando-se logo após em rotina adquirida e lugar comum.

Esta condição de humildade deve ser continuamente vivida e dramatizada para não se transformar ela própria em coisa adquirida, e o maior cuidado deve ser dedicado à formação da mentalidade “humilde”, extremamente civil e “contra a natureza”.

Acreditamos na possibilidade de evolução dos homens e na possibilidade de auto-aperfeiçoamento de cada ser humano.

A premissa para edifícios construídos em função de sedes escolares, à primeira vista, parece transpor o problema arquitetônico, mas é pelo contrário a ele estreitamente ligado.

As escolas devem ser expressas segundo as formas da arquitectura contemporânea que se inspira essencialmente no homem e na posição de “humildade” que mencionamos. As formas que se expandem, que se ligam com o exterior, o jardim, as janelas largas, aquele ar de “não severidade”, é o primeiro passo para a abolição de barreiras. A escola-fortim, gótica, normanda ou sem estilo mas com denominador comum de edifício-prisão, lembrando quase aos alunos que o estudo é um penoso dever, esta escola tornou-se longínqua e obsoleta. E o próprio fato que arquitetos modernos tenham sido chamados para projetar todas estas escolas, nos parece uma profecia.

Comecemos pelas escolas e sobretudo comecemos pela arquitetura”


					
Anúncios

One thought on “Lina Bo. in:PRIMEIRO: ESCOLAS

  1. Eu gosto muito desse calor que a Lina sempre passa, de enxergar o homem atrás da paredes, atrás da construção, antes da arquitetura. Em sua mente, ela está lá, vivendo a escola com os estudantes, ela se torna uma estudante e busca na memória o que lhe faltava, o que lhe oprimia. E aí sim ela volta, mãe afetuosa e arquiteta, propondo humildade, ela que é tão sensacional. Genial Rafinha.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s